Foi uma constatação', diz médico que alertou sobre desabamento em Capitólio há uma década

flavio

O médico Flávio Freitas, de 52 anos, passeava em seu barco pelo lago de Furnas, em Capitólio (MG), em 2012, quando se deparou com uma fratura chamativa em um dos cânions da região e resolveu fazer um registro. Em suas redes sociais, publicou na ocasião: “Essa pedra vai cair”. Quase uma década depois, ele compartilhou novamente a imagem, e o post viralizou após o desabamento parcial de um paredão do local neste sábado, que deixou ao menos oito mortos e mais de 30 feridos.

Segundo Freitas, que já visitou o município turítisco duas vezes, não foi exatamente uma previsão, mas sim “uma constatação”. Isso porque, explica o médico de Ilhabela (SP), a rocha apresentava um aspecto “perigoso”. Ele ressalta que “não é geólogo, mas era realmente gritante”.

— Em uma dessas viagens, passei por esse local onde houve o acidente, um dos mais visitados ali em Capitólio, e aquela fenda me chamou atenção, porque realmente ela é extensa, larga. Visualmente, ela apresentava um aspecto perigoso. Fiz a foto na ocasião e escrevi: ‘essa pedra vai cair’. E passou. Quando recebi o vídeo do acidente ontem, reconheci o local. Voltei nos meus álbuns do Facebook e achei a foto, que postei de novo e gerou toda essa explosão midiática. Não foi previsão, não foi nada. Foi uma constatação.

Em entrevista à CNN, o prefeito de Capitólio, Cristiano da Silva (PP), afirmou que a rocha da publicação não é a mesma que se desprendeu. Freitas, no entanto, explica que a foto foi feita em um ângulo diferente e que, na época, o nível da água era bem superior. Para ele, não há dúvidas de que se trata da mesma pedra.

— A foto foi feita em um ângulo diferente de que caiu. Os vídeos foram postados olhando essa pedra de frente, caindo em sentido de quem estava filmando. Eu estava com a lancha um pouco mais para o lado, no sentido da cachoeira. A única diferença da época para hoje é que, há 10 anos, o nível da agua lá em Capitólio era cerca de 10, 12m acima do que é hoje. Realmente muda o tamanho. O que aconteceu é que a rocha estava com uma área mais exposta agora. Mas o local é o mesmo — afirmou.

A publicação de Freitas somava quase 100 mil compartilhamentos até a publicação desta reportagem. Na imagem, datada de 10 de março de 2012, é possível ver nitidamente uma rachadura

Segundo o geólogo Fábio Braz, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e membro da Sociedade Brasileira de Geologia (SBG), as rochas na região do acidente são formadas por blocos de quartzito, nos quais as rachaduras são profundas e estáveis. Ao contrário do que ocorre nas falhas geológicas, explica, não existe movimentação de um bloco em relação a outro nas fraturas.

— A água em excesso percola essas fraturas e vai aumentar o peso do bloco, da rocha. Com essas chuvas intensas, o bloco se desprendeu. Então, aumentou o peso daquele bloco e penetrou pelas fraturas. O fraturamento lá é tipicamente vertical. É possível ver que cai em uma forma de torre. Primeiro, a estrutura da base entra em colapso e depois há o tombamento do bloco — disse Braz.

De acordo com o geólogo, em locais com essas formações rochosas deve-se evitar a aproximação do paredão e, em caso de chuva, as atividades têm de ser suspensas.

A Polícia Civil e a Marinha instauraram inquéritos para apurar as reais causas e circunstâncias do acidente. Até o momento, oito corpos foram identificados, mas apenas uma vítimas foi reconhecida formalmente. Outras duas pessoas seguem desaparecidas.

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