Enterro de frentista baleado em São Gonçalo é marcado por emoção, revolta e gritos de justiça

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Foi sob forte emoção, revolta e gritos por justiça que a família se despediu de Arilson Santiago Pinto, de 21 anos, frentista morto no início da manhã de domingo após ter sido baleado quando ia de carro para o trabalho, no bairro Tribobó, em São Gonçalo. Arilson, ou Barcelona, como era conhecido na comunidade, era morador da favela da Palha Seca e tinha o futebol como uma das suas maiores paixões. Ele foi enterrado no fim da tarde desta segunda-feira, por volta das 17h, no cemitério Memorial Parque Nycteroy, no bairro Laranjal, em São Gonçalo, em cerimônia que reuniu dezenas de amigos e parentes. Todos acusam policiais militares pelos disparos que atingiram o rapaz.

— O 7º BPM (São GOnçalo) só chega na comunidade fazendo isso, tirando vida de trabalhador. E hoje cadê? Não tem um comandante para falar com a minha cunhada, com a minha esposa. Cadê o governador? Só tem nós. Pela quantidade de gente aqui dá para ver o quanto o garoto é querido. Trabalhador, saindo 5h da manhã para trabalhar — desabafou o tio do rapaz, Nelson Maurício Fernandes.

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Durante o velório, o EXTRA também conversou com um dos ocupantes do carro onde Arilson estava quando foi morto. Ele, que prefere não se identificar por questões de segurança, conta que foi tudo muito rápido. Após o rapaz ser atingido, eles partiram em disparada para socorrê-lo.

— Não teve tiroteio, nem nada. Eles estavam na rua quando nós estávamos passando. Depois que os caras caíram da moto eles já vieram atirando — contou, ainda muito abalado: — Ele foi baleado nas costas e tombou, nós não paramos o carro nem nada, do jeito que passamos, continuamos seguindo (para socorrê-lo).

Grávida de 5 meses de Arilson, sua companheira Thamyres Medina estava inconsolável. A todo tempo, amigos e parentes mediam sua pressão. O momento de maior comoção foi quando o corpo do rapaz foi transportado da capela até o cemitério. Tanto ela quanto a mãe da vítima, a dona Vera Santiago, precisaram ser amparadas.

— Por que teve que acabar assim? A gente estava tão feliz! Por quê?! A nossa casa, nossas coisas… Por que você não está aqui? — dizia Thamyres, inconsolável, amparada pelos parentes.

A mãe, dona Vera, também muito emocionada, não aceitava a partida precoce de Arilson.

— Ele não merecia isso! Por que fizeram isso com o meu filho? — exclamou, em prantos.

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Por volta das 17h, o corpo de Arilson foi enterrado. Boa parte dos presentes vestia uma camisa com a foto do frentista vestido com a camisa do Barcelona, com pedido de justiça gravado nela. Foi neste momento, enquanto as pás jogavam terra sob a cova, que a família trocou as palmas, em homenagem a Arilson, por muitos gritos por justiça.

— Ele não era bandido! Se não fosse por aquela câmera (que flagrou a ação de PMs contra dois homens numa moto, no local e momento em que Arilson morreu), ele estaria agora aqui sendo enterrado como bandido — disse, revoltado, o padrinho do rapaz, que não quis se identificar.

O GLOBO questionou a Polícia Militar sobre as acusações feitas por parentes e moradores e se de fato havia a presença de policiais na comunidade Palha Seca, em Tribobó, no momento em que Arilson foi baleado e morto. De acordo com a PM, policiais do 7º BPM (São Gonçalo) disseram que, quando estavam em policiamento ostensivo pela Rua Dalva Raposo, no bairro de Tribobó, na manhã do último domingo, a equipe foi atacada por disparos de arma de fogo efetuados por criminosos locais. “Houve confronto, e os marginais fugiram”, diz a nota, acrescentando que, posteriormente, a unidade foi informada sobre a entrada de um homem ferido no Hospital Estadual Alberto Torres, no Colubandê, que não resistiu.

A ação, de acordo com a PM, foi comunicada à Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSGI), e as armas dos policiais foram apresentadas à perícia. A 4ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar (DPJM) também instaurou um procedimento para apurar as circunstâncias do fato.

Já a DHNSGI, que investiga o caso, recolheu imagens de câmeras de segurança da região e intimou a guarnição da Polícia Militar envolvida na ocorrência para que os policiais se apresentem na especializada com as armas usadas na ação. Agora, a Polícia Civil vai apurar os fatos para saber de onde partiu o disparo.

— Foram solicitadas as armas dos policiais envolvidos no fato, que estão sendo ouvidos. Agora, vamos fazer um confronto balístico, ouvir testemunhas e fazer uma perícia na imagem que já temos, referente a essa ação, para saber se efetivamente houve confronto ou não — disse o delegado Mário Lamblet, da DHNSGI.

Durante a tarde deste domingo, a plataforma Onde Tem Tiroteio, que registra onde há tiroteios pelo estado com a colaboração de moradores, publicou que houve relato de tiros em Tribobó, na altura da comunidade da Palha Seca, por volta das 17h. Pouco depois, moradores começaram uma manifestação por conta da morte do jovem. Moradores colocaram fogo em objetos e chegaram a fechar a RJ-106.

De acordo com a família, Arilson foi atingido por volta das 5h da manhã quando ia de carro ao posto de gasolina onde trabalhava, ao lado de um gerente do estabelecimento e de um outro amigo de trabalho. Eles contam que o socorro a Arilson foi feito por amigos do jovem.

— Eles (PMs) perceberam uma movimentação suspeita de uma moto com 2 elementos, quando os policiais efetuaram os 5 disparos — contou neste domingo um parente que não quis se identificar. — Mesmo sendo levado ao hospital por amigos, ele veio a falecer, deixando esposa, uma filha que está pra nascer e a família.

Um vídeo registrado por câmera de segurança do momento em que os disparos foram efetuados contra o veículo onde Arilson estava, na altura da Rua Dalva Raposo, também foi publicado nas redes sociais. Nele, é possível observar homens com farda semelhante à da Polícia Militar.

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