CAMINHO DAS BORBOLETAS – LUIZA BRAGA LEVA ADRIANE GALISTEU PARA SUA CASA

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Uma escuridão baixou sobre mim. Senti que minhas pernas não reagiam ao comando do meu cérebro. Meus braços, meu corpo – estava tudo amortecido. Fui despejada, por assim dizer, dentro de um automóvel e da noite que se seguiu, eu só me lembro de que a Luiza guiava, e chorava, que o carro trepidava por uma estrada que tanto podia dar no infinito quanto na Lua, que os ruídos calaram, que o mundo parou, que meus pensamentos chegaram próximo daquilo que os budistas devem chamar de grau zero de percepção. Era como se estivesse dopada. Não sei quanto durou a viagem do Algarve a Sintra. Passava da meia-noite. Despertei à vista daquela que todos chamavam de “Casa do Ayrton”. Bati de cara na realidade:

– Não posso acreditar, Luiza. Ele não me deixou. Ele não fez isso comigo. Ele sabe que não pode fazer. Sabe que não tem por que me deixar aqui sozinha. Sabe que é muito especial para mim.
– Eu sei, eu sei – ela chorava e me consolava.  – Então, não me põe naquele quarto.

O nosso quarto, eu queria dizer. Luiza, solícita:

– Não, Adriane, você vai dormir na casa grande, aqui em cima, bem ao meu lado.  Mas nem assim: tudo me fazia lembrá-lo. Ainda outro dia, tínhamos jantado naquela sala. Tínhamos rido, conversado, feito planos com nossos adoráveis anfitriões. Minha cabeça rodava. Agora que eu topava de frente com a tragédia, fazia questão de encará-la. Ayrton me disse, uma vez: “Dri, o fraco não vai a lugar nenhum”.

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