Caminho das Borboletas: Ayrton Senna Sofre o Acidente e Adriane Galisteu se Desespera

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CAMINHO DAS BORBOLETAS

– Ai, que bom! Ele vai voltar mais cedo para casa. Foi um relâmpago na minha cabeça – um pensamento egoísta, com certeza estúpido, talvez inconseqüente. Mas, por um segundo, tive este flash de esperança: ele arrancaria luvas e capacete, sairia do carro carregando aquela cara de garoto ofendido tão familiar por ocasião das derrotas, se recomporia, fugiria às carreiras do autódromo e das entrevistas, já encontraria o comandante Mahonney esperando por ele no aeroporto, com a turbina ligada, e em questão de horas estaria se jogando nos meus braços, em outro país, em nossa casa, no Algarve, em Portugal.

     O impacto do carro no muro ganhava bis e mais bis na tevê. Curva Tamburello, o nome do lugar, repisavam os comentaristas. Era uma tomada a distância – e a distância o que dava para ver era a lateral direita do Williams azul razoavelmente amassada, uma roda perdida, nada que sugerisse alguma coisa mais grave do que batidas parecidas com aquelas das quais ele já tinha se livrado, são e salvo. Outra imagem da tevê mostrava com clareza o momento em que o Williams se desgarrou da pista, em alta velocidade, e sumiu do campo de visão da câmera acoplada ao carro que o seguia, o do alemão Schumacher.

     Dei um salto do sofá, ainda segurando o prato do almoço na mão – franguinho diet, legumes, para manter a forma. Minha única companhia, naquele casarão enorme, era Juraci, a caseira. Expectativa: mas por que demorava tanto o socorro? Bandeiras amarelas agitavam-se nas proximidades, mas ninguém acudia o piloto acidentado. As câmeras da televisão italiana, mal localizadas, também pareciam manter um distante desinteresse pelo que tinha acontecido.

     Minutos de espera – na verdade, me pareceram horas. Minha taxa de adrenalina foi subindo, mas confesso que não me desesperei de cara. Tinha certeza de vê-lo, de repente, desatando o cinto de segurança e saltando, lépido, para fora daquela carcaça meio estropiada, capacete verde-amarelo debaixo do braço, enfezado, a caminho dos boxes.

     Nada. O primeiro carro de socorro enfim se aproxima. Nada. A narrativa do locutor da televisão inglesa começa a dar sinais de ansiedade. Nada. Eu só gritava: – Mas o que eles estão esperando?

     Perdi a fome. Colei os olhos no telão, enquanto o helicóptero com um cinegrafista a bordo tentava, enfim, buscar uma imagem mais próxima. A coisa tinha sido pior do que eu imaginara. Mas eu nunca teria imaginado o pior – e ainda me recusava a imaginar.

        – Deve ter quebrado os braços, ou uma perna – comentei, não sei mais se para mim mesma ou em voz alta. Buscava a única explicação possível, um consolo, para a cena inesperada. O Béco que eu conhecia tinha pavor de se machucar. Era cair de um jet-ski, em Angra, ou escorregar na quadra de tênis, em Sintra, para ele parar tudo, checar músculos e articulações, pedir uma massagem rapidinha – meticuloso em seu preparo invejável, ele não tinha a menor vontade ou vocação para entrar em contato físico com a dor.

– Sai do carro, sai – tinha ímpetos de gritar, e gritava. Ele não saía. Pensei: desmaiou. Mas o ligeiro movimento de cabeça, meio para a esquerda, que a câmera captou, deu força a minha teoria: ele pedia ajuda, implorava para que o retirassem dali. O amontoado de gente sobre ele, as frestas de imagem mostradas em meio ao atendimento, a aflitiva movimentação dos paramédicos, os comentários nervosos dos locutores foram desenhando na minha alma, lenta, lentíssima, muito lentamente, o painel do pânico. Eu continuava de pé, na sala de tevê, imóvel, em silêncio, quando começou a me subir do estômago, ou de um lugar qualquer situado entre o estômago e o esôfago, uma coisa esquisita, entre um grito e um soluço. Vi os pés dele. Sem movimento. Era a revelação fatal. Sou expert na linguagem dos pés. Eles me dizem tudo. O que os pés dele me diziam, naquela hora, era a mais terrível de todas as coisas. Soltei meu desespero, pranto, berro, medo, inconformidade – mas ainda um quê de esperança, por que não? Aí, pela reação em torno, é que percebi que já não estava sozinha naquela sala, que a Juraci berrava, que os vizinhos tinham acorrido, que cães latiam assustados, que o telefone tocava. Uma sinfonia fúnebre se instalava na casa em que eu, na minha santa ingenuidade, pensava vê-lo chegar aquela noite, mais cedo, com aquele sorriso lindo, pronto para um reencontro que já demorava quase um mês.

Jamais passou pela minha cabeça a idéia de que o palco onde ele foi três vezes rei poderia ser ó mesmo de sua morte. Nunca se pensou que Ayrton Sena morreria numa pista de corrida. Nem eu nem ninguém. Ele vivia do risco da velocidade extrema, mas o seu talento incomparável parecia ter eliminado, da cabeça de todos os seus adeptos do mundo inteiro, essa sinistra possibilidade. Ele até que talvez pudesse pensar. Mas essa era a natureza de seu trabalho – que ele conhecia melhor do que ninguém.

Depositaram o corpo dele, inerte, sobre a pista de Ímola – e eu continuava ignorando a hipótese do pior. Uma mancha vermelha no chão, da cor do sangue, me apavorou. Mas uma alma piedosa me enganou:

– Não é nada, não. É uma espuma nova que estão usando, contra incêndio.

Acreditei. Mas um telefonema me chamava à razão. De Sintra, da quinta onde mora com seu marido, o banqueiro Antônio Carlos de Almeida Braga, e com Joana e Maria, suas duas filhas adolescentes, minha amiga Luiza exibia uma voz preocupada:

– Braga ligou de Ímola. É grave. É gravíssimo. Você tem de ir pra lá imediatamente.

– Luiza, vem comigo, por favor. Não me deixe sozinha. Ela, então, alugaria um jatinho em Lisboa. Até o Faro, meia hora. De lá, direto para Bolonha. Pedi para a Clara, uma amiga de lá e decoradora da casa, que me fizesse uma maleta de mão, imaginando dois, três dias de estada ao lado dele, num hospital qualquer. Esqueci a televisão, as imagens repetidas, apaguei da memória o rosto assustado daquela improvisada platéia que apareceu na casa da Quinta do Lago e tentei me fixar na idéia do encontro próximo, ainda que doloroso. Machucado que estivesse, eu queria pegá-lo. Tocar seu peito. Acariciar seus pés. Sonhava com o contato físico, pele na pele. Queria sussurrar-lhe ao ouvido coisas bonitas e encorajadoras.

Notícias entram e saem, desencontradas, assim como os visitantes. Luís, amigo da casa, vem dizer que, no rádio, informam que Senna recobrou a consciência. Não é tão desesperador assim. Agora, é minha mãe ao telefone, do Brasil:

– Filha, que coisa que aconteceu!? – Ela está chorando. Tento consolar:

– Não, mãe. Acabou de dar uma notícia de que ele voltou…

– Dri, cai na real – disse minha mãe. – Só um milagre. Senti alguém me dar um copo de água e colocar uma pílula na minha boca. Com certeza um calmante. Esparramada sobre o sofá, chorando muito, os intestinos em ebulição, tive a idéia de ligar para a mãe dele, que estava na fazenda de Tatuí:

– Zaza, Zaza… – Eu não tinha muito o que dizer. – Fala, menina.

– Acabou de dar aqui uma notícia de que ele recobrou os sentidos, ele vai ficar bom.

– Estou pegando um avião às 14h30 para Bolonha – ela me avisou.

– Então a gente se encontra lá.

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