CAMINHO DAS BORBOLETAS – ADRIANE GALISTEU SE DESPEDE DA MANSÃO DO ALGARVE

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De minha parte, entreguei os pontos: estiquei-me na cama e fiquei horas ali, entorpecida, sem nenhuma reação. Luiza achava melhor desistir de Bolonha, irmos juntas para a casa dela em Sintra. Entre um telefonema e outro para o Braga, que velava o herói morto, ela me deu um tempinho para me refazer. Pedi ajuda a Clara, uma amiga da família, a decoradora daquela bela casa do Algarve que eu não veria mais – e o que eu pedia a Clara, naquele momento, já tinha o som de um adeus.

– Junta o que eu trouxe do Brasil. A malona, tudo.

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Os três volumes que eu tinha acabado de desfazer menos de 24 horas antes, com toda uma equipagem para passar cinco meses de temporada européia ao lado dele. A temporada acabou antes de começar.

Mais um favorzinho, pedi: atrás da porta do banheiro nosso, tem lá um short e uma sweat shirt dele, que eu tinha usado naquela manhã, enquanto corria. Naqueles dias em São Paulo, percebi que seria capaz de acompanhar o Béco na sua corrida matinal em torno do condomínio do Algarve. Um progresso e tanto. Calção Sweater ainda estavam suarentos. Queria levá-los comigo. A Clara sentiu que a hora era de despedida: 

– Mais nada de lembrança? – perguntou.

Tinha, sim: uma visita solitária ao gramado, à piscina, à Lua, ao silêncio da rua, ao escritório onde o fax emudecera, às fotos dele, aos troféus de uma carreira brusca e incompreensivelmente interrompida. Vi o som, tremendo aparelho que ele trouxe da Suíça. Por curiosidade, quis saber qual teria sido o último CD que ele ouviu na vida. Phil Collins – tudo a ver. Isso, eu tinha direito de partilhar com ele. Guardei o CD. Caminhei, com minhas lágrimas, em torno da casa.

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