CAMINHO DAS BORBOLETAS – ADRIANE GALISTEU RECEBE A NOTICIA DA MORTE DE AYRTON SENNA

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No aeroporto do Algarve, a tarde começava a cair. Teríamos três horas até Bolonha, anunciou o piloto, tão logo desembarcou. Luiza estava muito nervosa, mas argumentava:- Ele é forte, Adriane, ele é um touro.- Mais notícias do Braga? – eu quis saber.  – Nada – disse ela. – Mas é muito grave.Aquele ombro maternal, ou fraterno, sei lá, ajudava a tornar as coisas menos difíceis. O comandante levou o jatinho até a cabeceira da pista e pediu autorização para decolagem. Demorou um, dois minutos. Estranho. Desacelerou e começou a refazer o caminho de volta:- Não tenho autorização da torre. Há um chamado para dona Luiza, ou para dona Adriane.Quando a porta do jatinho se abriu e Luiza e eu descemos, senti que toda e qualquer palavra tinha perdido a razão de ser. Os funcionários do aeroporto, os carregadores de bagagem, os turistas, os amigos que tinham me dado carona, os visitantes de cara fechada – eu diria até as pedras, os bichos vadios, as primeiras estrelas do céu, o clarão da lua nascente, as fachadas das casas, os estalos da noite, tudo, rigorosamente tudo, e todos, rigorosamente todos, me davam, em seu silêncio aterrador, a notícia definitiva. Eu tremia dos pés à cabeça.Luiza voltou pálida. Sentou do meu lado. Pegou na minha mão:- Adriane… – quis se controlar.- Luiza, só não me fala que ele morreu.  – Ele morreu.Abraçou-me soluçando. De outra sala do aeroporto, veio a musiquinha: tãtãtã… Aquela da Globo, que a SIC, em Portugal, tinha adotado. O fundo musical de tantas vitórias dele. Seria uma alucinação ou eu ouvi mesmo? Eu estava surda, muda, cega, prostrada. Na sala de comando do aeroporto, fiquei paralisada como uma estátua. Chorava sem parar – chorávamos sem parar, a Lu e eu. Alguém me contou depois que vivemos ali uns quarenta minutos de absoluto desespero.- Vamos pra casa – me abraçou, enfim, a Luiza. – Não há mais nada a fazer.

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