CAMINHO DAS BORBOLETAS – ADRIANE GALISTEU QUER VER SENNA MESMO MORTO

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Pela tela de uma tevê, eu experimentei a irrealidade da perda brusca de meu príncipe encantado, de meu amor, da razão de minha vida.

Dos abismos de minha precária consciência, eu tentava me apegar a qualquer coisa que fosse, para escapar à impressão de estar vivendo um pesadelo. Insisti: queria ir a Bolonha. Aquilo mesmo que eu buscava em vida, queria agora na morte: o toque nos pêlos do peito, os pés, o rosto, a máscara fria da morte. Só vendo, para acreditar. Essa idéia de pluft, tchau, não me conformava.

     – Estou indo, Braga – eu implorava àquele que tinha sido o paizão do Ayrton e, agora, tinha de manter a frieza para zelar da triste realidade da burocracia, da papelada, da autópsia, do embarque do corpo.

     – Não vem. Ninguém entra na morgue – ele desconversava. – Tem cinco mil pessoas se acotovelando lá fora. Soube depois que Joseph, o fiel massagista do Ayrton, entrou. Que Gerhard Berger, o parceiro definitivo, também. Celso, diretor do escritório em São Paulo, assinou o reconhecimento. Leonardo, não – alguém lhe sugeriu que o rosto do irmão estava deformado demais pela batida. De fato, num telefonema posterior, o Syd Walkins, médico de plantão da Fórmula 1, contou que Senna não tinha como sobreviver quando ele lhe retirou o capacete, ainda na pista de ímola. O sangue esguichou. Perdeu quatro litros de sangue na pista. A traqueotomia feita ainda no asfalto era uma desesperada tentativa de fazê-lo respirar, engasgado em sua própria massa encefálica. Massagem cardíaca, tudo isso era jogo de cena. Só um idiota poderia acreditar na chance de ele estar vivo. Senna morreu na pista. Mas o circo não podia parar.

Acidentedo SennaPode parecer mórbido, mas fiquei sabendo que um fotógrafo da revista italiana AutoSprint estava na curva do acidente e fizera a foto do campeão em seu frio repouso. Liguei de Portugal para a revista. Apresentei-me: era a namorada do Ayrton, queria uma cópia da foto. Na minha aflição extrema, exigia o único atestado concreto de sua morte. O resto era a fumaça de um pesadelo que me perseguia.

Estava às portas da loucura. Não acreditava em nada, não via nada, não sentia nada. Devo a Luiza o meu precário mas salvador vínculo com a lucidez, naquele acolhimento amoroso e solidário de Sintra.

Hoje, dispenso o testemunho medonho da foto. Tenho ao meu redor, ainda em Sintra, o rosto puro, inteiro e singelo do meu herói, reproduzido em dezenas de fotos e pôsteres.

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