Aos 90 anos, drama de Lima Duarte corta o coração: ‘A morte quer me pegar’ – Comunidade F7

“Eu quase que nada não sei, mas desconfio de muita coisa”. É com a frase de Guimarães Rosa, seu autor preferido, que Lima Duarte me saúda ao telefone. Fixo. No sítio em que mora, no meio do mato, em Indaiatuba, no interior de São Paulo. Onde vai passar sozinho os seus 90 anos, que ele completa neste domingo. “Sou um homem recôndito”, ele repete várias vezes usando a palavra que quer dizer “oculto, retirado, que se escondeu”: “Gosto de ficar com minhas plantas, meus livros. São eles que me fazem companhia. Às vezes, olho e vejo a morte na esquina. A morte quer me pegar, mas eu fujo dela. Ela fica me esperando: ‘Cadê aquele fdp?’”.

Lima solta uma gargalhada e resigna-se. “Ninguém vai viver para sempre. O que me interessa é deixar meus ensinamentos, é saber que, enquanto estive aqui, me diverti”, observa. Brincadeiras à parte, ele conta causos e de como encontrou uma forma peculiar de lidar com a quarentena. Não que seja árduo para ele. “Estou acostumado. Pela forma como nasci e fui criado, minha grande alegria é o pensamento. Eu gosto muito de pensar e tudo o que eu vivo e vejo no mundo são subsídios para o meu pensar”, filosofa.

O tempo livre para pensar, já que as gravações da série “Aruanas”, para a qual está escalado, foram suspensas, levou o ator e uma amiga, professora universitária, a bolarem uma brincadeira no isolamento. “Ela passou a me mandar frases famosas de filósofos no mundo todo adaptadas para o coronavírus e a campanha para ficar em casa. Aí, eu e ela começamos a adaptar também atores nacionais. E passamos o dia criando isso. Qual autor você me sugere?”, questiona ele, convidando para a sua pequena e lúdica travessura.

Sugiro Guimarães Rosa, afinalé seu autor preferido. “Acho que esse homem pegou minha vida e escreveu sobre mim”, reflete Lima, nascido Ariclenes Vanâncio Martins, nos cafundós de uma fazenda em Sacramento, Minas Gerais, em 1930, dez anos depois da gripe espanhola que matou muita gente: “E ainda tinha o tifo, a sífilis. Eram tempos bem difíceis. Minha mãe arrumou umas injeções e me dava todos os dias e eu não sabia por que. Ela mandou perguntar ao meu pai. Ele passava muito tempo fora de casa. E me disse: ‘É para você não ficar como o rei de Roma que tem chifres’. Eu enlouqueci querendo saber se alguém tinha visto o rei de Roma para saber se era verdade. Depois, mais tarde, vim a descobrir que meu pai tinha a doença”.

Dançando na sala

A mãe, uma mulher simples, porém visionária, ensinou arte ao único filho. “Não sei como ela fazia. Mas me contava histórias, abria um universo para mim. Deixa te contar uma coisa bonitinha: Quando eu aprontava, minha mãe me dava umas palmadas, mas era tão pequenininha — Ela achava que o mundo todo era maior que ela — que eu a segurava. E então a gente acabava dançando na sala, só eu e ela. Não é lindo isso?”, emociona-se.

Um pouco de tudo o que viveu está nos mais de 100 personagens de sua biografia, em que estão os inesquecíveis Zeca Diabo (”O Bem-Amado, 1973), Sinhozinho Malta (“Roque Santeiro, 1985), Sassá Mutema (”O salvador da pátria”, 1989), Dom Lázaro Venturni (”Meu bem, meu mal”, 1990), Afonso Lambertini (“Da cor do pecado”, 2004), e mais recentemente o romântico Josafá (”O outro lado do paraíso”, 2017).